Jean-Paul Sartre foi um filósofo francês que viveu no século XX e se tornou um dos principais expoentes da corrente filosófica que ficou conhecida como existencialismo. Suas ideias influenciaram não apenas a filosofia contemporânea, mas repercutiram na literatura e na política, oferecendo uma reflexão radical sobre a liberdade humana, a angústia existencial e a responsabilidade individual em um mundo considerado sem um sentido pré-determinado.
Em sua célebre obra O Ser e o Nada (1943), Sartre propôs uma filosofia onde o ser humano é livre para construir seu próprio destino, sem depender de essências ou valores estabelecidos. Ao afirmar que "a existência precede a essência", ele apresentou uma ideia revolucionária para sua época. Além disso, seu engajamento com o marxismo e suas posições políticas geraram debates acirrados. Neste artigo, vamos discorrer sobre a vida e a obra de Jean-Paul Sartre, destacando os principais acontecimentos que marcaram sua trajetória.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
Biografia de Jean-Paul Sartre
Jean-Paul Sartre nasceu em 21 de junho de 1905, em Paris, França, em uma família de classe média. Seu pai, Jean-Baptiste Sartre, faleceu quando ele tinha apenas 1 ano de idade, e ele foi criado pela mãe, Anne-Marie e pelos avós maternos, na cidade de Meudon, que ficava perto de Paris.
Desde cedo, Sartre se mostrou interessado em literatura e cinema, sendo admitido aos 19 anos no curso de Filosofia da Escola Normal Superior, em Paris. Lá, ele conheceu a filósofa Simone de Beauvoir, que viria a ser sua companheira intelectual e amorosa durante toda a vida.

Durante sua estadia em Paris, entrou em contato com as ideias de pensadores como Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Søren Kierkegaard, que influenciariam sua visão filosófica mais tarde.
Jean-Paul Sartre graduou-se em 1928 e iniciou sua carreira como professor, uma experiência que o motivou a aprofundar seus estudos na filosofia existencialista. Esse interesse crescente o levou a buscar uma compreensão mais profunda dos conceitos filosóficos, com o objetivo de desenvolver sua própria teoria sobre a liberdade, a responsabilidade e a existência humana. Em busca de novos conhecimentos, Sartre conquistou uma bolsa de estudos e foi estudar no Instituto Francês em Berlim.
No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, foi convocado para servir como meteorologista no exército francês e acabou sendo preso pelos nazistas e indo parar no campo de concentração de Trier. Essa experiência foi fundamental para sua filosofia, já que lhe trouxe uma maior consciência sobre a liberdade humana e a condição existencial do ser humano no mundo.
Em seguida, fundou o movimento Socialismo e Liberdade, como parte da Resistência Francesa. Com o fim do conflito, em 1945, ele dissolveu o movimento e, junto com Simone de Beauvoir e Maurice Merleau-Ponty, criou a revista Les Temps Modernes, que se tornaria um importante veículo de reflexão filosófica e política. Posteriormente, Sartre se juntou ao Partido Comunista Francês, mas logo entrou em desacordo com suas diretrizes, rompendo com a organização e seguindo um caminho mais independente em suas convicções políticas.
A partir da década de 1940, Sartre começou a se tornar conhecido internacionalmente com o lançamento de sua obra O Ser e o Nada (1943), em que delineava as bases do existencialismo.
Sartre recusou o Prêmio Nobel de Literatura em 1964, afirmando que isso implicaria em um reconhecimento institucional que ele considerava incompatível com sua filosofia da liberdade individual. Ele continuou a escrever e a participar da vida política até sua morte, em 1980, em Paris, de edema pulmonar.
O Conceito de Existência e Liberdade em Sartre
A ideia central na filosofia de Sartre é a liberdade humana, que ele entendia como uma característica essencial do ser humano. Para ele, não há uma natureza humana predeterminada; os seres humanos são condenados a serem livres, ou seja, eles têm de criar seu próprio sentido de vida e suas próprias escolhas. O ser humano, para Sartre, está sempre "lançado" no mundo, sem uma explicação prévia de sua existência.
Esse conceito de liberdade está intimamente ligado à responsabilidade. Ao reconhecer que somos livres, também somos responsáveis por nossas escolhas e pelas consequências dessas escolhas, sem poder atribuir a culpa a fatores externos como a natureza ou o destino.
Isso gera a sensação de "angústia existencial", pois a liberdade não é algo fácil de carregar. Sartre acreditava que, ao tomarmos consciência de nossa liberdade, nos deparamos com a responsabilidade de dar sentido às nossas vidas, sem esperar que esse sentido venha de fora.
A Obra-Prima “O Ser e o Nada”
Publicado em 1943, O Ser e o Nada é a obra mais conhecida de Sartre e um marco fundamental do existencialismo. Nesse livro, Sartre aborda uma das questões centrais para a filosofia: o que significa ser? Ele analisa a experiência humana, distinguindo entre o "ser-em-si", o ser das coisas objetivas e concretas, e o "ser-para-si", o ser consciente que tem a capacidade de refletir sobre sua própria existência.
Uma das ideias mais revolucionárias do livro é a noção de que a existência precede a essência. Para Sartre, os seres humanos não possuem uma essência pré-determinada, como os objetos. Eles existem primeiro e, só depois, se definem por suas ações. Essa visão contrasta com a visão tradicional da filosofia, que acreditava que os seres humanos tinham uma essência fixa que determinava suas ações e características.
Além disso, Sartre introduz o conceito de "má-fé" (mauvaise foi), que se refere à tendência humana de negar a própria liberdade e responsabilidade, enganando a si mesmo para escapar da angústia existencial. A má-fé seria um mecanismo de defesa psicológica, mas que, para Sartre, impede a verdadeira liberdade.
Sartre e o Existencialismo
Embora o existencialismo de Sartre seja conhecido por sua ênfase na liberdade individual e na busca pelo sentido da vida, Sartre rejeitou a ideia de um Deus ou de uma força sobrenatural que guiasse ou determinasse a vida humana. Para ele, a ausência de Deus ou de qualquer essência pré-determinada coloca ainda mais peso sobre a liberdade humana, já que, em um mundo sem divindade, somos nós que temos a responsabilidade de criar significado para nossas vidas.
A famosa frase de Sartre "O homem está condenado a ser livre" reflete essa perspectiva. O ser humano não tem escolha a não ser ser livre, mas essa liberdade é angustiante porque ela implica uma constante necessidade de fazer escolhas que definem nossa própria existência.
Sartre e o Marxismo
Sartre se envolveu com o marxismo a partir da década de 1950, quando começou a estudar as obras de Karl Marx e a refletir sobre as condições sociais e econômicas que constroem a existência humana. No entanto, Sartre manteve uma relação complexa com o marxismo, especialmente devido às suas divergências sobre a natureza da liberdade e da política.
Embora ele compartilhasse a crítica ao capitalismo e ao opressor sistema social, Sartre acreditava que a liberdade individual era o ponto central, o que o levou a distanciar-se de certas interpretações marxistas que enfatizavam o determinismo social.
Ele procurou conciliar o existencialismo com o marxismo, criando uma abordagem filosófica que, ao mesmo tempo, reconhecia a importância das condições sociais e políticas para a liberdade humana, mas também afirmava a primazia da ação individual na luta pela liberdade.

Obras de Jean-Paul Sartre: Principais Livros
Confira a tabela abaixo com uma relação das principais obras de Sartre e o que o filósofo abordou em cada uma delas:PRINCIPAIS LIVROS DE SARTRE | RESUMO |
---|---|
O Ser e o Nada (1943) | Considerada a obra-prima de Sartre, em que ele explora a liberdade, a responsabilidade e o conceito de existência humana, distinguindo entre o ser-em-si e o ser-para-si. |
A Náusea (1938) | Romance existencialista que descreve o desconforto e a angústia de um homem que começa a perceber a realidade como absurda e sem sentido. |
Crítica da Razão Dialética (1960) | Trabalho filosófico em que Sartre tenta integrar o existencialismo com o marxismo, discutindo a relação entre a liberdade individual e as condições materiais da sociedade. |
Entre Quatro Paredes (1944) | Peça de teatro existencialista que aborda a questão da liberdade, da culpa e da interação humana em um espaço fechado. |
A Idade da Razão (1945) | Romance que faz parte da "trilogia dos caminhos da liberdade", onde Sartre discute a liberdade, a escolha e as relações humanas em uma Paris pré-Segunda Guerra Mundial. |
As Palavras (1964) | É a reflexão autobiográfica de Sartre sobre sua infância, o despertar para a escrita e a maneira como as palavras o ajudaram a construir sua identidade e visão de mundo |
Frases de Jean-Paul Sartre:
"O homem está condenado a ser livre."
Essa citação é retirada da obra "O Existencialismo é um Humanismo" (1946), onde Sartre discute o conceito de liberdade radical e sua implicação na vida humana. A frase reflete a ideia de que, ao não haver uma essência pré determinada, o ser humano é livre para fazer suas próprias escolhas, mas, ao mesmo tempo, está "condenado" a essa liberdade, sem possibilidade de escapar da responsabilidade que ela carrega.
"A liberdade é o que você faz com o que foi feito de você."
Essa frase aparece na obra "As Palavras" (1964), uma reflexão autobiográfica de Sartre, em que ele explora sua infância e as influências que moldaram sua identidade. Ele se apropria dessa ideia para refletir sobre a liberdade como um processo contínuo de transformação pessoal, mesmo diante das limitações da nossa origem e circunstâncias.
"O inferno são os outros."
Essa citação vem da peça de teatro "Entre Quatro Paredes" (1944), onde Sartre explora os conflitos existenciais através de uma situação em que três personagens estão condenados a conviver eternamente em um mesmo quarto. A frase reflete a ideia de Sartre sobre a "visão do outro", ou seja, como a presença dos outros seres humanos pode limitar nossa liberdade, pois nos definem e nos julgam de maneira constante.
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Conclusão
A filosofia de Jean-Paul Sartre revolucionou o pensamento do século XX, fornecendo uma abordagem radical sobre a liberdade, a responsabilidade e a busca de sentido em um mundo sem predefinições. Sua ideia de que a existência precede a essência e sua ênfase na liberdade humana fizeram dele uma das figuras centrais do existencialismo.
Embora suas posições políticas e sua relação com o marxismo tenham sido controversas, Sartre continua sendo uma referência fundamental para aqueles que buscam compreender a condição humana e a busca pela autenticidade. Seu legado permanece presente na filosofia contemporânea, desafiando-nos a refletir sobre a liberdade, as escolhas e a responsabilidade em nossas vidas.
Perguntas Frequentes sobre Sartre
Quem foi Jean-Paul Sartre e o que ele defendia?
Jean-Paul Sartre foi um filósofo francês e principal nome do existencialismo. Ele defendia que o ser humano não tem uma essência predeterminada e é livre para criar seu próprio significado na vida, assumindo total responsabilidade por suas escolhas.
Qual a principal teoria de Jean-Paul Sartre?
A principal teoria de Sartre é o existencialismo, que afirma que "a existência precede a essência". Ou seja, os humanos não nascem com uma natureza fixa, mas constroem sua identidade através das escolhas que fazem, sendo responsáveis por suas ações.
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Referências
https://revistacult.uol.com.br/home/o-mal-estar-no-mundo/
https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vidas-literarias-jean-paul-sartre/