Este curso aborda as razões do sucesso e fascínio que os reality shows exercem sobre as pessoas, apesar de serem espaços em que a violência, a perversidade e a tortura (física e psíquica) sejam normalizadas. A conexão entre esse produto midiático e a vida social, que o fez se tornar o programa televisivo mais rentável de toda a programação disponível, possibilita uma atualização do conceito de indústria cultural, desenvolvido por Adorno & Horkheimer (Zahar, 2006), que já em 1969 nos alertavam que todo produto cultural da sociedade industrial “não dá folga a ninguém, tanto no trabalho, quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho” (p.105).
O formato de entretenimento promovido pelos reality shows, é uma alegoria perfeita das regras de reprodução da vida em sociedade, onde a cultura do sofrimento é exaltada. Silvia Viana, em seu livro Rituais de sofrimento (Boitempo, 2013), observa esses programas a partir de uma perspectiva materialista histórica, com atenção aos comandos sociais que exigem das pessoas força, resiliência e aceitação das dificuldades da vida impostas pela realidade. A ficção apresentada pela edição desses programas utiliza os mesmos mecanismos de construção da realidade social, dessa forma, a fantasia ideológica (ŽIŽEK, Zahar, 1992), transmitida em horário nobre, seria um reflexo da realidade do trabalho, das relações familiares e das dinâmicas sociais.
Assim como nos realities, a vida em sociedade não permite a desistência, mesmo frente à humilhações extremas. Tese apresentada em 2013, ano que marcou o início das profundas crises e transformações políticas e econômicas do país, o assunto reality show volta hoje ao centro do debate político, com novos contornos e novo cenário. O que nas realidades, de ambos os lados da tela, se transformou e o que se manteve despercebido?


